Há pelo menos dez anos escrevo colunas e artigos sobre a decadência e elitização do futebol brasileiro. Não sou nenhum vidente, mas sempre acompanhei futebol, frequento arquibancadas desde os anos 1970, e eram claros, para qualquer observador atento, os sinais de que algo profundamente errado estava acontecendo.

A destruição de estádios clássicos, como o Maracanã, e suas transformações em “arenas”, o fim dos setores populares nos estádios, a proibição de bandeiras, a imposição de torcidas únicas em jogos, tudo isso vem se acumulando há pelo menos uma década. E o resultado é o que vimos sábado passado na final da Sul-Americana, entre Athletico e Red Bull Bragantino.

Em primeiro lugar, antes que me xinguem: os dois clubes não têm nada a ver com isso. Fizeram campanhas brilhantes e mereceram chegar à final. Parabéns aos dois. Estou falando do “espetáculo” montado pela corrupta e incompetente Conmebol, uma farsa ridícula, uma tentativa cafona de “europeizar” o futebol sul-americano.

É um absurdo fazer uma final na América do Sul em jogo único e estádio neutro. “Ah, mas na Europa é assim.” E daí? A Europa tem uma tradição de jogos em estádios neutros porque as distâncias a serem percorridas pelos torcedores são muito menores e existe um sistema de transporte eficiente e barato. Fazer uma final entre dois times brasileiros no Uruguai é buscar elitizar o público. Para piorar, os ingressos foram vendidos a preços absurdos. O mais barato custava quase 600 reais (para a final da Libertadores, que será disputada no mesmo local, o ingresso mais barato custa o dobro, 1200 reais).

O resultado era previsível: estádio vazio. Tão vazio que, numa manobra grotesca, a Conmebol juntou os torcedores no meio do estádio, só para que as câmeras não mostrassem as arquibancadas às moscas. Agora, imagine a final sendo disputada no Brasil, em dois jogos, perto das torcidas e com ingressos a preços razoáveis. Teríamos dois espetáculos lindos.

Em nome de uma suposta “modernização”, estamos acabando – ou já acabamos – com nosso futebol. Claro que ninguém é a favor de torcidas organizadas violentas ou de estádios com instalações precárias, mas existe um meio-termo entre o caos e a elitização absoluta.

Hoje, ir ao estádio deixou de ser uma festa. A população mais pobre não tem condições financeiras de pagar por ingressos, e as arquibancadas estão cada dia mais cheias de turistas e de pessoas fazendo “selfie”. Ir ao Maracanã era uma de minhas maiores alegrias. Hoje, não vou mais.

Se quisermos salvar nosso futebol – e não falo só do jogo, mas de tudo que ele envolve: a torcida, a festa, a descontração, a diversidade nas arquibancadas – precisamos dar uma guinada radical. Parar de copiar só o que o esporte europeu e norte-americano tem de ruim, e copiar o que eles têm de melhor, como estádios bonitos, confortáveis e de fácil acesso e, principalmente, o “fair play” financeiro visto em alguns países. Pra ontem.

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