O assunto violência de torcidas no futebol voltou à tona. Nenhuma novidade. A conversa pode cochilar por algum tempo, mas, de repente, voilá, desperta. Desta feita, cutucada pelos episódios da Copa São Paulo de Júnior, no trepidante Campeonato Paranaense, nos jogos entre Athletico e Paraná e, por último, Maringá e Athletico, e em Brasília, no duelo Gama e Brasiliense.

Você que acompanha este extemporâneo blog sabe, é dos assuntos preferidos da casa. Há diversos textos sobre, entre certeiros, razoáveis e um tanto esbaforidos. Assim, vejo a oportunidade de lançar:

6 verdades inconvenientes sobre violência de torcidas no futebol

Nunca vai acabar
Rapazes saindo no tapa por causa de futebol passou a ser enquadrado como um fenômeno há décadas, ali pelos anos 60, com a associação do hooliganismo ao esporte na Inglaterra. Agora, é possível que confusões, tretas e altercações detonadas pela bola rolem desde a origem do jogo-jogado, quando um índio aplicou um voleio num coco que se desprendeu do coqueiro no Brasil.

Então, lamento se o decepciono, mas não há controle sobre tudo. Por melhores que sejam as condições de segurança, por mais, digamos, educados, que sejam os torcedores, por mais eficiente que seja o aparato policial e, até, por mais rigorosa que sejam as punições, o pau ainda vai quebrar.

O motivo? Ora, porque os caras gostam de brigar. E gostam por que? Bem, aí é de cada um, mas é meio esquisito mesmo.

Eles não sabem o que fazem
Num movimento cíclico e coordenado, sempre que o tema requenta, aparece gente pra opinar, com maior ou menor grau de influência. Um monte de jornalista falando bobagem, ainda vá lá, mas a coisa fica perigosa quando quem tem poder se mete naquilo que não conhece.

É quando figuras como políticos, promotores públicos etc aproveitam o palco nobre do futebol para ganhar alguma popularidade. E, quase que invariavelmente, com propostas esdrúxulas, típicas de quem sabe pouco ou quase nada sobre a dinâmica das violência no esporte.

No Brasil, qualquer que seja a iniciativa sobre o assunto, é inescapável falar com o professor e doutor em Sociologia Mauricio Murad, o maior especialista do país em violência no futebol, autor de diversas publicações sobre o tema (ele não tem Whats, então não é tão simples).

Acabar com as organizadas, torcida única, torcida humana (teve isso), é tudo perda de tempo
Entre as "soluções" para barrar o fenômeno que se alastrou pelo Brasil, na virada dos anos 80 para os 90, e por causa da Batalha no Pacaembu, em 1995, esteve a extinção das torcidas organizadas em São Paulo. Passado o tempo, ficou claro: não deu certo.

Então, não adianta vir com essa conversa pois, como diz aquele do WhatsApp, "já foi dado risada". O que aconteceu? Da clandestinidade, as facções se associaram ao carnaval paulista e foram ganhando ainda mais poder e, também, grana pretíssima.

Diante da fracassada experiência, é certo que o melhor é ter as torcidas organizadas ativas e o mais perto possível das autoridades. Marcação cerradíssima. Com compartilhamento de informações, dados, parcerias em programas sociais e, evidentemente, responsabilização se for o caso.

Já sobre a modalidade de "torcida única", ok, pode-se sugerir que, sem os adversários por perto, as brigas devem diminuir. Afinal, não tem um oponente pra você dar um soco ou, nos velhos tempos, aplicar uma bambuzada.

Mas, na prática, é algo também pouco efetivo. Primeiro: as confusões em jogos com duas torcidas são exceção, não regra. Ou seja, pune-se a todos por causa de alguns. E, mais importante, as brigas costumam ocorrer a quilômetros dos estádios.

Os clubes são sócios das torcidas
Não há clube no Brasil que não se associe, de alguma forma, aos torcedores organizados. Seja no fornecimento de ingressos, custeio de viagens, privilégios na ocupação das praças esportivas e, fundamentalmente, busca de apoio nas eleições internas.

Então, sempre desconfie daquele cartola que, oportunamente, aparece para condenar os "vândalos travestidos de torcedores". Não é uma relação simples, especialmente porque determinadas torcidas agem como verdadeiras organizações criminosas. O problema é que a cartolagem, diante dos ganhos em potencial, topa qualquer negócio.

Jogo de futebol sem o "espetáculo das torcidas" é muito pior

Eu sei que futebol está virando "jogo pra TV" e, agora, pretexto para streamers que conhecem o esporte a partir do Fifa/PES granjeiem ainda mais influência e audiência virtual com quem tem pouco, ou nenhum, interesse pelo esporte (Casimiro, sou seu fã). Mas a melhor experiência com o futebol, com o perdão do termo surradíssimo, se dá no estádio.

E sem as torcidas organizadas presentes, com alguma frequência o jogo fica tão monótono quanto uma partida de futebol americano. Considerando, ainda, que diferentemente do que ocorre nas arenas americanas, aqui não temos baldes de garlic fries, infinitos rótulos de cervejas, frapuccinos e toda sorte de acepipes para matar o tempo comendo e bebendo.

Faça a pesquisa: de cada 10 torcedores, 9 se apaixonaram pelo clube do coração quando, novinhos, viram o tremular das bandeiras, as cataratas de papel higiênico, a batucada, os cânticos (com uma enxurrada de palavras proibidas em casa), as faixas, a fumaça e as camisas com figuras terríveis estampadas.

Se você passou a curtir o esporte por causa das movimentações táticas, daquele craque estrangeiro, ou queria ver como era na realidade aquele joguinho de manager virtual, tudo bem também. Há quem goste de música por causa de Iron Maiden e de cinema por causa de filmes da Marvel. Todo mundo é livre, né?

Mas, voltando, taí uma verdade absoluta: com as torcidas organizadas no campo, de preferência duas, uma de cada time, o espetáculo é muito, mas muito mais divertido.

"Ah, então você é a favor de briga? De facada em criança?". Calma, amiguinho.

Não tem solução fácil

Se você quiser tentar tudo o que já foi tentado, e não deu certo, ok, vai lá e vê se o milagre acontece. Mas, é certo, que a solução não é simples. E, repito, começa por admitir que a violência não será extirpada para sempre do esporte. Mas, claro, pode, e deve, ser minimizada o tanto quanto possível.

Como? Bem, há exemplos em série mundo à fora, especialmente na Alemanha. Mas, evidentemente, nem todos aplicáveis ao Brasil e suas, muitas, peculiaridades, o país com a maior taxa de homicídios do planeta Terra.

Tudo passa pela aproximação com os grupos organizados, parcerias em programas sociais, especialização das forças de segurança e, também, responsabilização rigorosa dos envolvidos.

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