É uma discussão já ensaiada, entre figurinhas e áudios acelerados, nos grupos de WhatsApp, para onde migraram os debates sobre futebol diante do ocaso, inapelável, de botecos, portarias, pontos de ônibus e esquinas. Nikão é o maior jogador dos 97 anos de história do Atlético, Atlético-PR e Athletico?

Antes, é preciso clarear. Uma coisa é classificar determinado atleta como o melhor da história de um clube: neste caso, são considerados apenas os recursos técnicos, táticos e, ainda, os anímicos. Depende do repertório do analista: há quem enxergue virtudes no mais grosseiro perna-de-pau.

Agora, o maior da história, não em estatura, mas simbolicamente, é outra conversa. É imprescindível se apoiar nos feitos, taças, vitórias, em todos os signos, sob todos os contextos. Tem um pouquinho de ciência, mas, sobretudo, de experiência. O mundo não foi criado quando você nasceu, ok?

Voltando ao tema, se Maycon Vinicius Ferreira da Cruz é ou não o maioral, quem seriam os rivais do mineiro de 29 anos? Essa é fácil, difícil será posicioná-los na escala de importância: Caju, Sicupira, Adriano Gabiru e Alex Mineiro. Esqueci alguém?

O goleiro Caju defendeu o Athletico, literalmente, por 18 anos, entre as décadas de 30 e 40. Integrou o legendário Furacão de 49, foi seis vezes campeão paranaense, conquista máxima da época. Despertou a atenção da seleção brasileira quando Curitiba era distante milhares de quilômetros de qualquer lugar.

Ninguém deu mais alegria aos rubro-negros do que Barcímio Sicupira, o maior artilheiro do clube, com 158 gols, protagonista do triunfo estadual de 70. Não fosse o Craque da 8, seu bigode, cabeleira e vocação para astro pop, e os atleticanos teriam passado uma década inteira sem mostrar os dentes.

Adriano Gabiru escreveu história parecida com a de Nikão. Ambos desembarcaram no Caju sem condições físicas, com vantagem de uns 50 quilos em favor do segundo. Virou atleta e colecionou tantos títulos quanto, aposentado, coleciona aparições fascinantes nas redes.

E, então, tem Alex Mineiro. Só oito gols nos quatro jogos decisivos do maior título da história do clube, o Brasileirão de 2001. E fez mais o quê? Nada. E precisava? Não precisava. Como um predestinado, uma força mística, um messias consagrado vermelho e preto, tornou-se o maior de todos os tempos.

Mas, agora, temos Nikão. Apareceu em 2015 como se fora resgatado de um GTA de boleiros. Livrou-se da silhueta rotunda, do peso das correntes de ouro fajuto, abraçou uma religião, sua família e passou a acreditar, especialmente, no pé esquerdo que o fez ser apelidado de Maradona Negro pelos russos.

Desde então, são dois títulos do Paranaense, uma Sul-Americana e uma Copa do Brasil como titular. Maior artilheiro do clube na Sul-Americana, com oito gols, quem mais vestiu a camisa rubro-negra na Libertadores, 21 vezes. Mais de 300 partidas pelo clube numa arrancada irresistível de vitórias do clube.

Sendo bem objetivo, a pilha de canecos deixa pouca margem para a discussão. As campanhas atuais do Athletico, finalista da Sul-Americana e, agora, da Copa do Brasil, com uma espécie de Nikazo no Maracanã, menos ainda. Entretanto, repito, quem vê somente o campo, não enxerga tudo.

Mais do que a canhota, e a capacidade de proteger a bola contra brutamontes, Nikão ainda teve de driblar todos os seus demônios. Construiu trajetória única, de cabelinho na régua e bigode à moda antiga, que o faz alcançar o posto de maior jogador da história do Furacão antes mesmo de dezembro chegar.

Participe da conversa!
0