Eu ainda peguei o Atletiba vivo. Não vivo, exultante e quicando, como nas decisões de 1978, que em sete dias reuniram três dos quatro maiores públicos da história do clássico. Ou mesmo nos anos 50 e 60, quando os duelos se convertiam em lendas instantâneas. Mas ainda saudável, viçoso, tonificado, entre o finalzinho dos anos 80 e a metade dos 90.

À época não se suspeitava, mas vivíamos os estertores, para usar um termo dos velhos e roucos narradores do rádio, da rivalidade fundamental do Paraná. Não é possível precisar, mas entendo que os últimos Atletibas românticos foram os das finais do Estadual de 1990. Dali em diante, o clash of titans paranaense foi agonizando e não viu a virada do milênio. Descansou.

Antes de desenrolar a tese, se é que há alguma, destaco: o Atletiba têm uma característica que, na minha esbaforida e pedante opinião, o inclui entre os mais bonitos do planeta. Não há coincidência de cores entre os rivais. O Coritiba é verde e branco. O Athletico é preto e vermelho. A rixa é, antes de tudo, estética. Como Boca e River. Inter e Grêmio. Barça e Real. Fla e Flu.

Contraste cromático que confere ao encontro, ou conferia, uma fotografia estonteante, de pintores impressionistas, como numa viagem lisérgica. Painel iluminado em rubro-negro e alviverde por camisas, calções e meiões, bandeiras e bandeirões, faixas, fumaça colorida e sinalizadores, ou até mesmo numa capa borrada da Tribuna de segunda-feira.

Era o cenário até a metade dos 90. Quando no Couto Pereira, palco da maioria dos Atletibas, toda a curva da Igreja do Perpétuo Socorro era território da torcida atleticana. Quando no Pinheirão a massa coxa-branca enchia completamente o setor de entrada (ou dos fundos) do hoje mausoléu do Tarumã. E em outras oportunidades, quando a divisão dos setores para o público atendia ao equilíbrio viável.

Você sabe que um clássico é vencido, e perdido, muito além do gramado. Há exaltados e humilhados, também, nas arquibancadas. É no concreto armado que se entoam os hinos, os cânticos, é onde se despejam as ofensas, pragas, é onde brotam feridas eternas e, igualmente, onde se encontra qualquer cura. Todas as profanações e reverências são do jogo.

Mas, por ganância da cartolagem e incompetência geral, entretanto, o espaço para os visitantes foi encolhendo, ano após ano, e o contraste das torcidas sumindo. Até chegar ao tamanho que será oferecido ao adversário para os clássicos do Paranaense 2022: nada, zero, nenhum. Na Baixada, os coxas-brancas não terão um assento sequer, que se contentem com a porta na cara. No Couto, para os atleticanos, o mesmo: coisa alguma.

Não foi tão simples chegar até aqui. O atual cenário, de descoramento do Atletiba, é rebote de uma série de circunstâncias. Entre elas, da violência entre as torcidas, evidentemente. Foi-se o tempo dos corridões, dos safanões, da trocação, dos arremessos de objetos e, acredite, há quem tenha saudade até mesmo de uma "inocente facadinha".

Da metade dos anos 90 em diante, entrou em cena um instrumento urgente: o revólver. Mais, Curitiba cresceu, se alastrou, as torcidas organizadas viraram um tremendo negócio e explodiram as concorrências internas, os comandos se espraiaram, descontrolados, e passaram a oferecer para uma molecada cheia de disposição ativo tão ou mais sedutor que grana: moral na quebrada.

E assim, de tocaia em tocaia, de biarticulados apedrejados em biarticulados apedrejados, falimos. Para agora, as forças de segurança, com a adoção da torcida única, terem chegado a um consenso, sucedido de um sentimento de alívio que só abandonar algo traz: melhor deixar isso pra lá. Segurança da cidade em dia de futebol dá muito trabalho e nenhum resultado.

Falta de resultados que, veja só, é o resultado da absoluta ignorância sobre as dinâmicas das torcidas e sobre o caráter belicoso do futebol. Não há, nem nunca houve, um esforço sério, concentrado e profundo sobre o assunto. Não há, nem nunca houve, interesse em tratar de forma madura o tema. E sem punição, não há solução.

O que há, e sempre houve, é bibibi bóbóbó de "vândalos travestidos de torcedores", o mantra dos oportunistas que trazem soluções frouxas, como a pitoresca ideia de "torcida humana" patrocinada pelo Athletico e pelo Ministério Público do Paraná há algum tempo. Proposta que partia do pressuposto que as torcidas vão aos estádios com o mesmo espírito de quem passa o dia na Disneylândia.

Desistência que ocorre, justamente, quando vivemos quase como no filme Minority Report. Há biometria, há câmeras, há perfis em todas as redes, vem aí o reconhecimento facial, não se vai até a padaria comprar um pão sem deixar pelo caminho um rastro de gigabytes. Mas as polícias, e os clubes, não sabem o que fazer, não entendem e, finalmente, não querem.

Mas o Atletiba não morreu apenas por causa da violência das torcidas e do descoloração fatal das arquibancadas. É vítima também do preceito filosófico de um dos mais importantes pensadores do Brasil: Tim Maia. Quando o cantor e entertainer proferiu que "tudo é tudo e nada é nada", resumiu aquele sentimento que nos acomete diante da vida corrida na virtualidade da internet.

Há pouco menos de três décadas, no domingo (e na vida) só havia o Atletiba. Curitiba não oferecia duas dezenas de shoppings, você não podia torrar o dinheiro em inúmeros canais de streaming, o 145 era a rede social e os aficionados por futebol sabiam da existência de outras competições só pelos Gols do Fantástico ou pela Placar.

A vida não se encerra mais no contato pessoal, no Jornal Nacional, no Fantástico ou nas revistas com distribuição mensal. A resposta que você precisa, ou não, pode ser dada a qualquer hora. Foi-se o tempo em que sair de casa, e ficar longe do telefone e de um recado anotado, era a suprema liberdade. Tudo é mais importante. Ao mesmo tempo, nada importa tanto mais.

Já há alguns anos, pudemos descobrir que há péssimos torneios pelo mundo todo e a glória futebolística escapou dos limites da capital, ou do Paraná, para ganhar o Brasil e, principalmente, a América Latina, com a farta distribuição de vagas pelas copas Libertadores e Sul-Americana. Há rivais espalhados por todo o continente e o Athletico acredita que River e Boca estão entre os seus.

Diluiu-se a graça de tirar sarro do pós-Atletiba, quando no dia seguinte o fardamento do clube era vestimenta obrigatória na escola, faculdade ou aparecia pendurado no pescoço no trabalho. A galhofa é instantânea e quase impessoal, memificada nas redes e nos grupos de WhatsApp. Tem sua graça, claro, mas some no embalo das centenas de notificações diárias.

O mundo é o nosso quintal. Esqueça tudo como era antes. O Atletiba está morto. Viva o Atletiba!

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