Volto em edição extraordinária para tratar de tema fascinante: "torcida única". Em linhas gerais, é a expressão para designar a presença da torcida de apenas um dos times no estádio, a representação do mandante, no caso. Na esfera conceitual: o fracasso absoluto na adoção de medidas de segurança, na compreensão da dinâmica da violência no futebol e, por fim, mas não por último, a dessacralização do esporte como campo de rivalidade e fantasia, de duelo entre os times, no gramado, e entre as torcidas, nas arquibancadas.

Eis que, após os incidentes verificados no Atletiba no Couto Pereira pelo Paranaense – marcado, com acachapante perspicácia, para uma quarta-feira à noite –, autoridades de segurança pública do Paraná decidiram reviver o plano de descolorir ainda mais os clássicos, já pálidos pelas circunstâncias, com a imposição de que apenas uma das torcidas vá ao campo. Ora, como diria aquele personagem dos áudios de WhatsApp: "já foi dado risada".

Mas, vamos pelo princípio, que pode ser também o meio ou o fim se você estiver vendo um filme do Christopher Nolan. A reação da polícia, de tentar meter essa da "torcida única" se dá, simplesmente, por um vacilo primordial, tão elementar que, chego a duvidar, se não foi mesmo uma arapuca para suscitar o problema e, depois, vender a solução. Por que, mil vezes por que, não havia uma separação decente, uma divisa adequada, entre as duas torcidas?

Um distanciamento protocolar entre as posições no Alto da Glória de coxas-brancas e atleticanos, uma fileira razoável de seguranças privados, ou policiais militares (podemos discutir em outro momento o emprego da Polícia Militar em eventos de caráter, digamos, privado) e, voilà, teríamos sido poupados do espetáculo deprimente ainda no primeiro tempo do clássico. Aí, quem sabe, não haveria nem espaço para o papo, manjado, sobre torcida única.

Mas, a medida absolutamente básica, não foi tomada, e volta à tona um esquema que, o óbvio ululante, já se mostrou completamente paliativo, cosmético, de resultados pífios, pra não dizer patéticos. Afinal, o pau tora, para ficar no popular, nos terminais, nos bairros, nas tocaias, nas porradarias marcadas pelas redes sociais, a quilômetros do estádio. Fenômeno que ocorre há, pelo menos, 20 anos, sem que, como se percebe, as autoridades de segurança consigam refinar suas estratégias.

Mais fácil, claro, é apelar aos clichês bobocas de "vândalos travestidos de torcedores", abraçar-se em soluções fáceis, e improdutivas, como a "torcida única", ou ainda, ao pitoresco projeto encampado pelo Athletico e pelo Ministério Público do Paraná, de "torcida humana". Spoiler: tudo perda de tempo.

Bem mais complicado, entretanto, é estudar os estratagemas das torcidas, a dinâmica daqueles que vão justamente para sair no braço e, olha só, se houver chance, big surprise, saem mesmo. Muito mais difícil é atuar com inteligência, infiltrar-se nos grupos organizados, buscar parcerias com os comandos das facções e, mais do que tudo, prevenir, vigiar e punir.

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