Ah, meu amigo. Que coisa pitoresca é a aventura do VAR na Terra. Pelos jogos de ida da Copa do Brasil, mais uma noite de avacalhação. O destaque: num lance de gol do Athletico, diante do Santos, o árbitro de vídeo, simplesmente, não operou. Foi marcado impedimento em campo, mas não passaram a linha! Ao final, Furacão 1, Peixe 0.

O motivo? Ainda não se sabe. O que nos permite especular: acabou a pilha do VAR no momento; o responsável estava no WhatsApp e não prestou atenção; a turma estava fazendo um lanche; e, por fim, a hipótese mais excitante e preferida dos torcedores: há por trás uma grande conspiração envolvendo o alto escalão da CBF e da Rede Globo.

Mas veja só. Mesmo a ausência do árbitro de vídeo está prevista no protocolo. Eu traduzi do volumoso livro de orientações da Board: "o jogo tem VAR, mas pode ser que não dê, tá? E aí, se der zica, vale o que o trio de arbitragem decidir, né". Sempre há uma justificativa e um protocolo a ser seguido em caso de falha do protocolo.

Como diria aquele narrador: é fascinante. Tanto que já é possível prever, com alguma dose de segurança e picardia, o futuro da ferramenta. Em pouco tempo, teremos o árbitro de vídeo do árbitro de vídeo, o VAR do VAR. Um dispositivo para aferir, em tempo real, a correção, ou não, das decisões da arbitragem eletrônica.

E assim, em moto perpétuo, virão o VAR do VAR do VAR que, mais à frente, será substituído pelo VAR do VAR do VAR do VAR. Para que, quem sabe, alcancemos a imunização arbitral no futebol: justiça plena, limpa e perfeita.

Ora, não surpreende. Desde o princípio, na gênese do VAR, estava claro até para o mais boçal ser humano sobre a Terra: o futebol é jogo, é dança, é teatro, da melhor e pior qualidade, e a maioria escorchante das decisões de arbitragem depende de interpretação e, também, de pura malícia.

Assim, era evidente, que colocar as decisões para serem tomadas por um grupo de pessoas, normalmente bitoladas, ao vivo, diante da luz azul de uma tela de TV, só poderia dar, adivinhe, no que está dando: uma avacalhação completa. Mas, claro, reforço: recheada das melhores intenções.

O VAR da forma que existe é simplesmente impraticável, "improtocolável", as atribuições não fazem sentido. É como guiar um monociclo, impossível de fazer sem cair. Ou como ser fã do Iron Maiden: não tem como defender sem se queimar.

Minha dica: urge fazer uma revisão completa dos protocolos (os ingleses já estão reavaliando). Espremer ao máximo para tirar, o tanto quanto possível, lances interpretativos da jogada. E concentrar a arbitragem de vídeo naquilo que é ultragráfico, matemático e óbvio (como é no tênis, no vôlei, nos sistemas que funcionam).

Assim, ou muda ou acaba. Do contrário, o futebol seguirá como uma discussão sobre o VAR enquanto rola um jogo em segundo plano. Ainda dá tempo e, quem sabe, com mudanças, nos lembremos da versão atual apenas como um corte de cabelo da adolescência: ridículo, mas necessário para crescer.

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