O legado de um homem é determinado por onde a história dele termina. Mas há histórias que, em razão da grandeza de seu personagem central, continuarão sendo contadas. A de Barcímio Sicupira Júnior, o Sicupira, é uma delas.

Bem por isso, não choremos de tristeza por Sicupira. Choremos de alegria.

A sua vida exerceu uma influência em um dado momento em nós que amamos o futebol, o Athletico, em especial, que a sua morte impede a percepção do trágico.  O facho de luz que acendeu quando jovem para nos iluminar como torcedor, nunca apagará. Fazendo gols, a sua história foi tão grandiosa que ela vai continuar sendo contada, agora, também, em forma de lenda.

No posfácio da obra do jornalista Sandro Moser que imortalizou Sicupira ("Sicupira – uma vida e gols de um craque chamado Barcímio"), escrevi:

“Certa vez, perguntaram à imortal poetisa Cecilia Meireles: de que são feitos os dias? Em poema, ela respondeu: “De pequenos desejos, vagarosas saudades, silenciosas lembranças”.

Feliz daquele que é capaz de guardar lembranças como valores que a vida, gratuitamente, lhe oferta por um dado momento. Sou rico de recordações. E das mais fortes que guardo, estão os gols de Barcímio Sicupira, vestindo a camisa do Athletico. E são memórias inextinguíveis, porque são aquelas guardadas e conservadas pelo coração. Como valores eternos.

Como jogador, Sicupira foi meu maior ídolo. Passei seis anos da minha vida de repórter esportivo atrás das metas, vendo-o balançar as redes pelo Furacão. Nunca procurei separar seus gols pelo belo ou pela importância, porque, independentemente da natureza, provocavam sentimentos de alegria, esperança e, quando nada mais era possível, conforto.

Mas o simbolismo do meu querer ao ídolo é um gol que nunca deixo se perder. Lembro como se fosse ontem: 1970, uma quarta feira de chuva e lama no velho Joaquim Américo. O Athletico era batido pelo tinhoso União Bandeirantes, por 1 a 0, em casada, e mais uma vez iria perder o título para os coxas.   Depois que o bicampeão mundial Djalma Santos desperdiçou um pênalti, e parecia não restar alguma esperança ao Athletico, restava Sicupira.

Na calada do jogo, chutando com a alma, Sicupira fez dois gols. O segundo, improvisando um arremate impossível, em uma jogada que se esvazia, é para mim o símbolo definitivo de todos os seus 158 gols em vermelho e preto. Quando fui enxugar os olhos, não sabia se eram de lágrimas ou de chuva. É uma marca porque foi naquele momento em que você precisa prestar contas ao coração, e não sabe como fazê-lo. E, ao coração atleticano, não se pode dever jamais.

Décadas se passaram e Sicupira é, ainda, vítima de um mal-entendido. Embora ídolo, nunca foi unanimidade no Furacão. Por um simples fato: era extraordinário como jogador. As suas qualidades, absolutamente especiais, como ocorre com todo ser humano invulgar, tornaram-no vulnerável. Referência das vitórias, em razão dos seus gols, acabou, também, sacrificado p elas derrotas. Mesmo sem culpa. E se eu me recordo de algum gol decisivo perdido por Sicupira, ainda assim o amparo com a tribuna do romano Cícero: “A lembrança serena de uma dor passada traz um prazer”.

Sicupira fez 158 gols pelo rubro-negro da Baixada.

Os números são inflexíveis, a vida nos ensina, e não há como contestá-los. Mas a marca erra uma estatística fria, quase inexpressiva, diante do valor que o coração atleticano lhe dá. É preciso considera-los em razão da época, e das circunstâncias. São 158 gols marcados no tempo em que o dia seguinte da vida do Athlético era salvo pelo idealismo e pelos sacrifícios pessoais de sua gente.

A dívida dos atleticanos com Sicupira é impagável. Por gratidão não tem preço”.

Por Sicupira ser eterno, a obra de Sandro Moser atualiza-se todos os dias. 

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