Nos raros momentos de folga durante a temporada da Série B, a comissão técnica do Coritiba adotou o pádel como hobby para se distrair da desgastante rotina de viagens e jogos. Mas como o esporte – parecido com tênis, mas cuja quadra tem vidros nos fundos e nas laterais – é disputado somente em duplas, sempre era necessário ter um quinto elemento de prontidão.

O técnico Gustavo Morínigo, responsável por conduzir o Coxa de volta à elite após uma temporada na Segunda Divisão, quase nunca dava as caras. “Ele só pensa em futebol”, resume o auxiliar Roberto Acuña, paraguaio assim como Morínigo.

“Ele diz que vai no pádel, mas quando chega a hora não aparece. Fica em casa, sozinho, estudando e pensando em futebol”, completa ‘Toro’, que disputou três Copas do Mundo pela seleção Albirroja.

Morínigo foi apenas ao Mundial de 2002, compartilhado entre Coreia do Sul e Japão. Meio-campista esforçado, encerrou a carreira de atleta nove anos depois, no Nacional. Mas ficar longe da bola nunca foi opção.

Gustavo Morínigo em ação pela seleção paraguaia, na Copa América de 2001. EFE
Gustavo Morínigo em ação pela seleção paraguaia, na Copa América de 2001. EFE

Em 2012, iniciou a trajetória como treinador também por El Tricolor, onde conquistou o título nacional em 2013 e o histórico vice-campeonato da Copa Libertadores de 2014, aos 37 anos.

O Coritiba só apareceu em seu caminho no início de 2021, após passagens curtas por Cerro Porteño (2016) e Libertad (2020) e uma longa estadia nas categorias de base da seleção paraguaia, onde atuou como coordenador e também técnico dos times sub-15, sub-17 e sub-20.

Morínigo como profissional da seleção paraguaia. EFE
Morínigo como profissional da seleção paraguaia. EFE

A oferta alviverde, com um contrato de dois anos, o surpreendeu. Assim como também seria surpresa conseguir evitar o rebaixamento do último colocado do Brasileirão a poucas rodadas do fim do campeonato.

Mas o desafio moveu o paraguaio, que completou a viagem de quase 14 horas, de carro, da capital Assunção a Curitiba, imaginando o que teria pela frente.

“Pensávamos em todo o trabalho e o Gustavo falava no orgulho de representar nossa bandeira em outro país. Viemos com o sonho e a esperança de não deixar o time cair, sabendo que seria difícil, e ainda sem conhecer muito o que encontraríamos pela frente”, confessa Acuña.

Além do auxiliar, Morínigo também trouxe o assistente paraguaio Martín Paolorosso e o preparador físico argentino Gonzalo Llanos.

A família do técnico, no entanto, permaneceu no país vizinho. E mesmo precisando encarar a saudade da esposa e dos quatro filhos – sem dúvida a maior dificuldade nesses 11 meses – Morínigo abraçou-se à obsessão de triunfar longe de casa.

Comandante solitário

Filho de pai militar, Gustavo Eliseo Morínigo Vázquez nasceu em Coronel Blas Garay, praticamente no meio do caminho de Assunção até a fronteira com o Brasil, mas foi criado na capital. Aos 44 anos de idade, não é exagero dizer que é obcecado por vencer.

Sua disciplina marcial é característica marcante e lhe a ajuda a não desviar o foco no estudo dos adversários e na preparação para as partidas.

Não raro ele senta sozinho no canto do centro de treinamento, com seu mate, para assistir vídeos. Sempre calado. “É uma pessoa muito solitária e trabalhadora. Gustavo gosta de pensar muito nos detalhes, gosta de estar sozinho”, explica o auxiliar.

“Depois ele escuta nossos conselhos e tira suas conclusões, mas precisa desse tempo para pensar”, completa Toro, enfático ao explicar por que não divide apartamento com o amigo em Curitiba.

“Não poderia estar com o Gustavo porque ele está o dia todo trabalhando, vendo vídeos, escrevendo, assistindo jogos – e eu não quero trabalhar o dia todo”, afirma.

Preocupações extras

O semblante de Morínigo quase sempre é o mesmo: extremamente sério e preocupado. Mesmo que internamente ele consiga diminuir a dose – e até faça brincadeiras e participe de rachões com o elenco – a expressão de preocupação tem razão de ser.

O paraguaio, por característica, gosta de se envolver em detalhes do dia a dia do clube. Seja na alimentação dos atletas, na logística das viagens ou em qualquer outro aspecto que possa afetar seu trabalho. Não por intromissão, mas por buscar o melhor para seu grupo.

Metódico, ele também preza por fazer as coisas sempre da mesma maneira, ou seja, não gosta de nada “fora do lugar”. Ele se incomodava, por exemplo, com a obrigação de ter de conceder entrevista instantes antes do início das partidas. Para Morínigo, o jogo começa logo após a preleção.

“O Gustavo tem valores muito fortes e definidos”, elogia o presidente Juarez Moraes e Silva. “É justo, honesto, focado, determinado e também previsível, no sentido humano e amplo da palavra. É um cara que você imagina o tipo de atitudes que vai ter, e isso acaba criando padrões de confiança e credibilidade para uma gestão complexa, lembrando que ele comanda 34 jogadores e só escala 11”, acrescenta.

É muito raro Morínigo subir o tom de voz no vestiário. Ele cobra os jogadores, mas de maneira serena. “O maior trunfo dele é saber gerenciar bem o grupo”, destaca o volante e capitão Willian Farias. “Não é um cara que dá esporro. Ele cobra de maneira sempre respeitosa, mas firme. E é um cara que deixa todo mundo em alerta, ligado, quem está jogando e quem não está”, relata o camisa 8.

O papel de, quando necessário, cobrar mais forte, acaba nas mãos do restante da comissão. “Acho que o Gustavo teria de ser um pouquinho mais forte nas palavras, mais ‘malvado’ em algumas situações”, brinca Toro.

Perfil traçado

Quando fechou contrato com Morínigo, o Coritiba sabia quem estava contratando. O perfil de alguém que gosta – e sabe –  trabalhar com formação de atletas foi critério para a escolha. A maneira transparente de se relacionar com os jogadores também.

“O cara é muito bom. É um estilo tranquilo na exposição, na argumentação, mas que impõe muita raça, muita pegada dentro de campo”, dizia o presidente Renato Follador, ainda em janeiro, cinco meses antes de morrer vítima de complicações da Covid-19.

Juarez, seu sucessor, comemora a precisão na escolha do G5 após o acesso garantido e mais de 50 jogos do comandante estrangeiro à frente do Coxa, longevidade que não se repetia desde 2013, com Marquinhos Santos.

O dirigente, aliás, reitera que a responsabilidade pelo “desastre” no Paranaense, quando o time ficou fora da segunda fase pela primeira fez desde a década de 1980, não foi do paraguaio. E apesar da enorme pressão externa, garante que ele nunca esteve próximo de ser demitido.

“Estamos muito satisfeitos, não só com o resultado em campo, que no futebol é o que prevalece, mas principalmente pela soma de caráter, personalidade e correção que o Gustavo tem”, ressalta Juarez.

Com mais um ano de contrato no papel, a permanência é mais do que possível. No entanto, em breve o paraguaio deve começar a ouvir as ofertas que se recusou a escutar antes de garantir acesso. A multa rescisória é baixa.

A prioridade, contudo, é permanecer e triunfar também na Série A. “A ideia é ficar mais um ano e, se as coisas forem, bem, por que não mais? Estamos muito cômodos aqui e sentimos o carinho da torcida”, finaliza Toro, o braço-direito do solitário treinador que subiu o Coxa em 2021.

Participe da conversa!
0